Por Lusmar Barros da Redação Econômica BlogPernambucoPE

Brasília, 07 de Junho de 2026 — A União Europeia (UE) retirou oficialmente o Brasil da lista de países autorizados a exportar produtos de origem animal para o bloco a partir do dia 3 de setembro/2026.

A medida, anunciada em maio pelo bloco europeu, entra em vigor após o Brasil não conseguir atender às novas exigências sanitárias relacionadas ao uso de antimicrobianos na pecuária — substâncias como antibióticos e outros medicamentos empregados para prevenir ou tratar infecções em animais, que em alguns casos também promovem o crescimento dos animais.

A decisão atinge diretamente o maior exportador mundial de proteínas animais, que em 2025 movimentou mais de US 1,8 bilhão em vendas de carnes e derivados para os 27 países do bloco europeu. Apenas de carne bovina, o Brasil faturou US 1 bilhão com a UE no ano passado, tornando o bloco o segundo maior mercado para as carnes brasileiras em valor, atrás apenas da China.

A partir de 3 de setembro de 2026, produtos brasileiros como carne bovina, carne de aves, peixes, ovos, mel, tripas e derivados de origem animal estão vetados no mercado europeu. A porta-voz de Saúde da União Europeia, Eva Hrncirova, confirmou a suspensão: "O Brasil não está incluído, o que significa que deixará de poder exportar bovinos, equinos, aves, ovos, mel e envoltórios".

A nova regra europeia proíbe o uso de remédios para promover o crescimento ou aumentar a produção dos animais. Os produtores também não podem usar substâncias reservadas para tratar infecções em humanos. A medida faz parte de uma política do bloco para combater a resistência de bactérias a medicamentos e evitar o uso desnecessário de antibióticos.

A exclusão do Brasil ocorre menos de quatro meses após a entrada em vigor provisória do acordo de livre comércio entre Mercosul e União Europeia, em 1º de maio de 2026. O acordo, que ainda aguarda decisão da Justiça europeia para confirmar sua legalidade definitiva, havia gerado expectativa de elevação de 5% a 7% nas exportações brasileiras para o bloco.

No primeiro quadrimestre de 2026, a UE já havia importado 34,7 mil toneladas de carne bovina brasileira, gerando receita de US 299,7 milhões — alta de 17,7% em volume em relação ao mesmo período de 2025. Em abril, foram embarcadas 8,7 mil toneladas, com faturamento de US 78,4 milhões.

O corte repentino das vendas para a Europa representa um baque para frigoríficos e cooperativas que haviam diversificado suas exportações justamente para reduzir a dependência da China — país que, desde janeiro de 2026, impõe uma cota tarifária de 1,1 milhão de toneladas a produtos brasileiros, com tarifa adicional de 55% para volumes excedentes.

O governo brasileiro e os produtores afirmam que foram pegos de surpresa com a medida, já que estavam em conversas com a União Europeia. O Ministério da Agricultura e Pecuária publicou há cerca de quatro meses uma portaria proibindo o uso e a venda de antimicrobianos empregados para engorda de gado, aves e suínos, dando prazo até o fim de agosto para a retirada dos produtos das revendas.

"O que eu quero assegurar é que o Brasil vai responder a essas exigências e vai seguir exportando. O Brasil tem um sólido sistema de defesa agropecuária. Não por acaso, nós somos o maior exportador de proteína animal do mundo. O que a União Europeia sinaliza é que ela quer antimicrobianos zero, e nós vamos trabalhar para chegar a isso", afirmou o ministro da Agricultura, André de Paula.

A Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec) se manifestou em nota: "A carne bovina brasileira atende aos requisitos sanitários e regulatórios dos principais mercados internacionais, com rígidos controles oficiais, sistemas de rastreabilidade e protocolos reconhecidos globalmente. Atualmente, o Brasil exporta para mais de 170 países, sustentado por um dos sistemas de inspeção e defesa agropecuária mais robustos do mundo".

Já a Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA), que representa o setor de aves e suínos, defendeu que o Brasil já cumpre as regras sanitárias europeias. "A gente tem certeza de que o Brasil vai conseguir explicar e mostrar o que a gente de fato faz na nossa produção. Nós não usamos antimicrobianos como promotores de crescimento e temos controles individuais que são bastante robustos", afirmou o presidente da entidade, Ricardo Santin.

A retirada do Brasil da lista de exportadores europeus expõe uma tensão crescente entre a agenda sanitária e ambiental da UE e a realidade produtiva dos grandes exportadores globais de proteína. Enquanto a Europa busca zerar o uso de antimicrobianos na pecuária, o Brasil — que em 2026 já havia exportado mais de 1 milhão de toneladas de carne bovina apenas no primeiro quadrimestre, com receita de US 6,047 bilhões — precisa adaptar uma cadeia produtiva que abastece mais de 170 países.

A Argentina, o Paraguai e o Uruguai, também membros do Mercosul, não foram atingidos pelas novas regras de exportação para o bloco, o que pode redirecionar parte da demanda europeia para esses países e criar desequilíbrios comerciais dentro do próprio Mercosul.

Do lado europeu, a medida também responde a pressões internas. Produtores rurais da Europa e o governo da França haviam questionado o acordo comercial com o Mercosul, argumentando que a competição desleal com produtos de países com padrões sanitários menos rigorosos prejudicaria o agronegócio local. A exclusão do Brasil pode ser interpretada como uma demonstração de que o sistema de controle sanitário europeu "funciona e é rigoroso".

O governo brasileiro mantém uma delegação em Bruxelas para negociar a reversão da medida. O chefe da delegação brasileira junto à UE busca explicações sobre o veto e tem reuniões agendadas com autoridades sanitárias europeias. A expectativa do setor privado é que até o fim do ano a medida seja revogada, desde que o Brasil apresente as garantias requeridas pelas autoridades europeias.

Enquanto isso, frigoríficos brasileiros devem intensificar a busca por alternativas em mercados como Estados Unidos — que já importaram 149,8 mil toneladas no primeiro quadrimestre de 2026, com receita de US 962,5 milhões —, Chile, Rússia e países do Oriente Médio, além de acelerar negociações com mercados asiáticos em abertura, como Vietnã, Indonésia, Japão e Coreia do Sul.

O USDA (Departamento de Agricultura dos Estados Unidos) estima que as exportações brasileiras de carne bovina em 2026 alcancem 4,28 milhões de toneladas em equivalente carcaça, um aumento de 6,8% sobre a projeção de dezembro de 2025. No entanto, a perda do mercado europeu pode forçar uma revisão desses números para baixo no próximo relatório do órgão.

Por Lusmar Barros da Redação Econômica BlogPernambucoPE

Com informações de G1, UOL, Agência Brasil e Abiec