Na PE-576, a estrada que liga Ipubi a Trindade, no coração do sertão pernambucano, uma cena se repete com frequência impressionante: filas intermináveis de caminhões aguardam para carregar em apenas uma das empresas gesseiras do município de Ipubi. O congestionamento é a prova física de uma potência econômica que o Polo Gesseiro do Araripe ostenta há décadas — uma das mais importantes reservas de gipsita do Brasil e da América Latina.

Toneladas de minério movimentadas, gerando emprego e renda em uma das regiões mais castigadas pela seca do Nordeste. O gesso do Araripe sustenta famílias, alimenta comércios e coloca Pernambuco no mapa da produção mineral nacional.

A atividade é, sem dúvida, destaque econômico no Sertão , uma matriz produtiva que resiste às adversidades climáticas — inclusive às chuvas extremas que, em períodos de inverno, dificultam a circulação dos veículos e prejudicam a extração do minério .

A Voz da ADESA: Potencial Real, Apoio Insuficiente

Mas se a força econômica é visível na quantidade de veículos e na poeira levantada pelas estradas de terra, a fragilidade do setor é silenciosa e estrutural. E quem acompanha de perto a realidade da região não hesita em apontar o diagnóstico. De acordo com a ADESA — Agência de Desenvolvimento do Araripe, o setor gesseiro tem força econômica indiscutível, mas precisa de maior atenção tanto do governo estadual quanto do governo federal para que essa potência se transforme em desenvolvimento sustentável, os prefeitos do Araripe também precisam trabalhar em prol do crescimento e desenvolvimento do polo gesseiro porque assim todos ganham.

A agência, que atua na articulação estratégica da região, defende que são necessárias ações pujantes para atrair melhorias estruturais ao desenvolvimento econômico do Araripe. Entre as bandeiras levantadas pela ADESA está a instalação de uma Central de Distribuição e de um Centro Logístico Industrial e Aduaneiro (CLIAA) em localidade estratégica da região de integração ferroviária, beneficiando diretamente o polo gesseiro . A proposta não é mero desejo: é uma resposta à necessidade concreta de infraestrutura que acompanhe a escala da produção.

Além disso, a ADESA reforça a urgência de incentivos fiscais melhores para os empresários do gesso. Não se trata de privilégio, mas de equiparar a região a outras zonas de produção mineral do país, garantindo que o lucro gerado no Araripe se reinverta no Araripe. O governo de Pernambuco já editou decreto para permitir a concessão de novos benefícios fiscais ao setor , e há linhas de financiamento específicas para as indústrias da região , mas ainda é preciso mais: mais abrangência, mais acessibilidade para pequenos e médios produtores, e uma política fiscal que não penalize quem produz localmente.

O pedido de atenção governamental ganha ainda mais peso quando se observa que, em alguns momentos, as políticas públicas federal e estadual não apenas omitiram-se, como prejudicaram o polo. Um relatório da OIT sobre a cadeia produtiva do gesso apontou que uma política fiscal federal diminuiu a taxa de importação do minério gipsita, tornando economicamente mais vantajosa a compra do minério do exterior do que do próprio polo gesseiro do Araripe . Enquanto isso, os municípios da região sofrem com estrangulamento fiscal, dependência de repasses e baixa capacidade de investimento em políticas locais .

A ADESA sabe que a força do gesso não está apenas sob a terra: está na capacidade de articulação de quem produz e de quem governa. Mas essa articulação precisa ser correspondida.

O problema não é a ausência de riqueza, mas a fragmentação da riqueza. O setor gesseiro do Araripe opera como uma colcha de retalhos: dezenas de pequenos e médios produtores trabalhando isoladamente, sem articulação estratégica, sem padronização de qualidade, sem investimento conjunto em pesquisa e inovação. O resultado é que a região vende matéria-prima bruta — o minério extraído — enquanto poderia estar vendendo produtos de alto valor agregado, tecnologia e know-how.

A modernização exige mais do que boa vontade individual. Exige gestão coletiva do setor. Exige que os gesseiros do Araripe entendam que a concorrência não está no vizinho, mas nas grandes indústrias do Sul e Sudeste que compram o minério pernambucano, beneficiam e revendem com margens muito maiores. Exige que o setor deixe de ser mero fornecedor de matéria-prima para se tornar indústria integrada, capaz de produzir desde o bloco bruto até o acabamento arquitetônico final.

Infelizmente, não existe um trabalho em conjunto em prol da região do Araripe, sobretudo do setor gesseiro, para ampliar e valorizar a cadeia produtiva como um todo. As representações existentes pouco se traduzem em políticas públicas estruturantes ou em parcerias com universidades e centros de pesquisa. Faltam laboratórios de inovação, linhas de crédito diferenciadas, programas de certificação e selos de qualidade que valorizem o gesso do Araripe no mercado nacional e internacional.

A Transnordestina, ferrovia que avança na região e já gera expectativa de crescimento para o polo , não será suficiente se o setor continuar desorganizado. Trens carregam minério, mas não carregam desenvolvimento por si só. O que transforma infraestrutura em progresso real é a capacidade organizativa dos atores locais somada ao compromisso efetivo dos governos estadual e federal.

A Valorização Começa por Quem Produz — e por Quem Governa

O setor gesseiro precisa ser mais valorizado — e essa valorização precisa começar por quem produz e por quem governa. Os gesseiros do Araripe precisam enxergar a si mesmos não como simples extrativistas, mas como empresários de um setor estratégico. Precisam investir em gestão, em tecnologia, em design e em marketing. Precisam entender que o gesso de Ipubi, de Trindade, de Araripina e de toda a Bacia do Araripe tem identidade geológica e territorial que poderia ser transformada em marca, em selo de origem, em garantia de qualidade.

Ao mesmo tempo, os governos precisam olhar para o Araripe não como eleitorado de quatro em quatro anos, mas como polo estratégico do desenvolvimento pernambucano. A ADESA já mostrou o caminho: central de distribuição, centro logístico, incentivos fiscais robustos, ações pujantes de desenvolvimento. Agora cabe ao Estado e à União fazerem a parte deles.

A cultura do sertão é, em muitos aspectos, uma cultura de resistência individual — de quem luta contra a seca, contra a distância, contra o abandono. Mas há momentos em que a resistência individual se torna limitação. O polo gesseiro do Araripe vive esse momento. A força econômica já está comprovada nas estradas, nos caminhões, nas empresas. O que falta é a coragem de se organizar — e o apoio institucional que não deixe os gesseiros sozinhos nessa empreitada.

O gesso do Araripe merece mais do que filas de caminhões em estradas de terra. Merece indústria moderna, merece pesquisa, merece políticas públicas integradas, merece reconhecimento nacional. Mas, acima de tudo, merece que seus próprios produtores acreditem que o futuro se constrói coletivamente — e que os governos, finalmente, reconheçam que uma região que carrega o estado nas costas não pode continuar sendo tratada como parente pobre.

A PE-576 mostra a força do polo. A ADESA mostra o caminho. Agora é preciso que todos — produtores, governo estadual e governo federal — mostrem a inteligência de quem sabe que nenhuma riqueza se sustenta sozinha.

Lusmar Barros Jornalista e fundador do Blog PernambucoPE , dedicado a destacar as riquezas da terra e da gente pernambucana.