Pesquisa inédita do Fórum Brasileiro de Segurança Pública revela inversão histórica na pirâmide hierárquica das PMs: 129 mil sargentos contra 117 mil soldados. Em 17 estados, há mais supervisores do que policiais de base. A PM virou escritório com farda.
Imagine um batalhão onde há mais sargentos dando ordens do que soldados para executá-las. Parece absurdo, mas é a realidade do Brasil em 2025. Segundo o recém-lançado Raio-X das Forças de Segurança Pública do Brasil 2026, do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, o país registrou 129.402 sargentos nas Polícias Militares, número superior aos 117.142 soldados .
Ou seja: há mais profissionais em posições de supervisão e comando intermediário do que na base operacional, responsável pelo policiamento ostensivo direto nas ruas. A PM deixou de ser uma corporação de campo para virar, na prática, um escritório com farda.
"Há mais cargos de supervisão operacional do que de execução – há mais chefe do que chefiados, em termos diretos" — alerta o estudo do Fórum .
A distorção não é um acidente. O estudo identifica um fenômeno amplamente documentado pela literatura especializada: o "achatamento da pirâmide". Acontece que, ao longo dos anos, as promoções verticais passaram a funcionar como forma de reajuste salarial, já que não houve atualização adequada dos planos de cargos e salários .
O resultado? Policiais sobem de patente não porque a estrutura operacional precisa, mas porque é a única forma de ganhar mais. E ficam "estacionados" no posto de sargento, que virou, na prática, o teto da carreira de praça.
Os sargentos hoje perfazem 32% do efetivo total das PMs, sendo o posto mais representativo da corporação. Soldados são 28,9% e cabos, 23,9% .
17 estados com mais sargentos que soldados — e a situação piorou
A inversão hierárquica não é um problema isolado. De 25 unidades da federação com dados disponíveis, 17 possuem mais sargentos do que soldados. São eles: Acre, Alagoas, Amazonas, Distrito Federal, Goiás, Mato Grosso, Minas Gerais, Pará, Paraíba, Pernambuco, Piauí, Rio de Janeiro, Rio Grande do Norte, Rondônia, Santa Catarina, Sergipe e Tocantins .
E o cenário está piorando. Na edição anterior do Raio-X, 9 estados apresentavam essa distorção. Agora são 13 estados onde o número de sargentos ultrapassa não apenas os soldados, mas a soma de soldados e cabos .
No outro extremo, os estados com menor proporção de sargentos são São Paulo (13,1%), Bahia (15,6%), Rio Grande do Sul (16,4%) e Paraná (18,8%) .
O caso Paraíba: mais sargentos que soldados e cabos juntos
Um exemplo gritante veio à tona nesta semana: a Paraíba possui 4.944 sargentos, número superior à soma de 1.622 soldados e 2.127 cabos . Ou seja, há quase um supervisor para cada dois policiais de base.
Essa estrutura inchada tem um custo direto. O Brasil gasta R$ 230 bilhões por ano com remuneração de servidores ativos e inativos da segurança pública estadual — o equivalente a 1,8% do PIB .
Um sargento ganha, em média, **R10.804,11** — quase o dobro de um soldado (R 7.612,61). Já um coronel chega a R$ 34.731,45 .
A diferença salarial entre oficiais e praças é abissal. Em Mato Grosso, por exemplo, oficiais recebem em média R31.153,16**, enquanto praças ganham **R 12.746,56 .
Enquanto a pirâmide se inverte, o policiamento nas ruas fica precário. O Brasil tem hoje 413 mil policiais militares, mas o efetivo está 35% abaixo do previsto pelos próprios estados . Em uma década, as PMs perderam mais de 30 mil profissionais .
A consequência? Delegacias fecham plantões 24h, policiais acumulam funções, e a população fica refém da insegurança.
"O modelo de segurança pública inviabiliza por completo qualquer ideia de aumento de efetivos em razão dos custos fiscais e previdenciários" — Renato Sérgio de Lima, diretor-presidente do Fórum Brasileiro de Segurança Pública .
A inversão da pirâmide não é exclusividade das PMs. Nos Corpos de Bombeiros Militares, a distorção é ainda mais gritante: são 20.129 sargentos contra apenas 14.615 soldados .
Casos extremos chamam a atenção: em Rondônia, há 3 soldados e 341 sargentos no Corpo de Bombeiros. No Maranhão, são 8 soldados contra 618 sargentos .
O diagnóstico do Fórum: um sistema em "compasso de espera"
O Raio-X 2026 do Fórum Brasileiro de Segurança Pública não poupa críticas. O documento descreve um sistema "pressionado por um custo fiscal elevado, mas estruturalmente incapaz de se renovar" .
A utilização de promoções como reajuste salarial, em vez de um plano de cargos realista, "tende a estrangular a capacidade de gestão e alocação de efetivos" e reduz a eficiência da atividade-fim .
Com mais coronéis, tenentes-coronéis, majores, capitães, tenentes e sargentos do que soldados para cumprir ordens, a pergunta é inevitável: quem, de fato, está policiando o Brasil?
Ou, nas palavras do próprio estudo: quem vai pagar a conta da inércia?
A resposta, infelizmente, já está no seu bolso.
📊 Fonte: Raio-X das Forças de Segurança Pública do Brasil 2026 — Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Dados de efetivo referentes a março de 2025.
