Cerca de 81,7% das famílias brasileiras declararam ter dívidas a vencer em setembro de 2026, segundo a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC). O número equivale a mais de quatro em cada cinco famílias e fica pouco abaixo do recorde de 82% registrado entre abril e agosto.
O que os dados mostram
O indicador da CNC considera famílias que possuem algum compromisso financeiro em aberto — como cartão de crédito, cheque especial, carnê de loja, crédito consignado, empréstimo pessoal, financiamento de carro ou casa. Estar endividada não significa, necessariamente, estar inadimplente: a família pode ter dívidas, mas pagar as parcelas em dia.
Por que o endividamento cresceu
A combinação de juros altos, inflação persistente em itens essenciais e renda pressionada reduziu a margem das famílias para consumir e pagar compromissos. Em setembro, a taxa média de juros das novas operações de crédito chegou a 32,4% ao ano; no crédito livre para pessoas físicas, a média foi de 62,4% ao ano.
O cartão de crédito, o rotativo e o cheque especial são especialmente sensíveis a esse cenário, porque cobram juros elevados e podem transformar uma dívida pequena em uma bola de neve. Ao mesmo tempo, o Banco Central apontou que as dívidas das famílias já representam 50,1% da renda acumulada em 12 meses, o maior patamar desde o início da série histórica em 2011.
Inadimplência segue em recorde
A inadimplência bancária das pessoas físicas — atraso superior a 90 dias — atingiu 6% do saldo total de crédito em setembro, maior nível da série histórica. No crédito livre, que inclui cartão, crédito pessoal e cheque especial, o índice chegou a 8,1%.
Isso indica que, embora a maioria das famílias ainda consiga honrar os compromissos, uma parcela relevante está com o orçamento esgotado. Entre famílias com renda de até três salários mínimos, a inadimplência foi de 38,5% em setembro, evidenciando que o problema é mais grave nas faixas de menor renda.
Impacto na economia
Quando 8 em cada 10 famílias destinam parte relevante da renda a dívidas, o consumo perde força. O efeito se espalha para o comércio, serviços e indústria, porque há menos dinheiro disponível para compras não essenciais.
Para o sistema financeiro, o avanço da inadimplência aumenta o risco de crédito e tende a manter os juros altos. Assim, cria-se um ciclo difícil de romper: juros elevados encarecem novas dívidas, mais famílias atrasam pagamentos e os bancos passam a cobrar ainda mais pelo crédito.
O que pode ajudar as famílias
Mapear todas as dívidas: valor, juros, prazo e prioridade de pagamento.
Trocar dívidas caras por mais baratas, quando possível, como usar crédito consignado ou financiamento com juros menores para quitar rotativo do cartão.
Renegociar antes do atraso, buscando descontos, parcelamento ou portabilidade.
Evitar novo crédito enquanto o orçamento estiver comprometido, especialmente cartão de crédito e cheque especial.
Reservar mesmo um valor pequeno por mês, para reduzir a necessidade de empréstimos em imprevistos.
Perspectiva
A leve queda para 81,7% em setembro não encerra o alerta: o nível segue muito alto e a CNC espera que o endividamento termine 2026 em torno de 81,5%. Enquanto o comprometimento da renda permanecer próximo de 29% e os juros continuarem elevados, o endividamento deve seguir como um dos principais desafios da economia brasileira.
