A cadeia produtiva da aquicultura brasileira enfrenta um cenário de crescente pressão competitiva com a intensificação das importações de tilápia provenientes do Vietnã. De acordo com dados divulgados pelo Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), o volume de pescado importado do país asiático atingiu a marca de 1,6 mil toneladas no primeiro bimestre de 2026, configurando-se como um desafio significativo para os produtores nacionais.

A problemática reside fundamentalmente na disparidade de preços praticados no mercado interno. O filé de tilápia vietnamita tem sido comercializado no território brasileiro na faixa de R 25 a R 29 por quilo, valor significativamente inferior ao praticado pela produção local. Essa diferença decorre, em grande medida, da ausência de equivalência nas cargas tributárias, exigências ambientais e custos operacionais enfrentados pelos cultivadores brasileiros.

Em Pernambuco, estado que se consolida como o quinto maior produtor nacional de tilápia e líder absoluto na região Nordeste, a situação é acompanhada com cautela pelas entidades representativas do setor. A produção anual pernambucana alcança 31,7 mil toneladas do pescado, gerando um valor bruto de produção estimado em R 415 milhões. O estado abriga ainda o município de Jatobá, localizado no Sertão de Itaparica, que se destaca como o maior produtor da região Nordeste e o terceiro colocado no ranking nacional.

O impacto da importação já demonstra efeitos mensuráveis em outras unidades da federação. Em Minas Gerais, por exemplo, foram registradas 122 toneladas de tilápia importadas apenas no mês de fevereiro do corrente ano. Diante desse cenário, o governo mineiro editou decreto elevando a alíquota do Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) sobre o produto importado para 18%, em uma tentativa de nivelar as condições de competitividade e proteger a produção estadual.

O contexto atual ecoa crises recentes vivenciadas por outros segmentos do agronegócio brasileiro, como a entrada de leite em pó proveniente do Mercosul e a importação de morango do Egito. Em ambos os casos, a competitividade desleal dos produtos estrangeiros — favorecida por custos operacionais mais baixos e exigências regulatórias menos rigorosas — resultou na pressão sobre as margens de lucro dos produtores domésticos, que operam sob parâmetros de conformidade mais elevados.

Além das implicações econômicas, o setor alerta para potenciais riscos sanitários associados à importação descontrolada. Nos últimos três meses, o volume total de tilápia importada pelo Brasil superou as 3.500 toneladas, amplificando rapidamente a oferta no mercado consumidor interno. Dados recentes indicam que, pela primeira vez na história, as importações brasileiras de filé de tilápia superaram as exportações do produto nacional.

A aquicultura pernambucana, que integra a Rota da Tilápia — projeto estadual que reúne 17 municípios produtores com o objetivo de fortalecer a cadeia produtiva e impulsionar o desenvolvimento regional —, busca alternativas para manter sua competitividade. A iniciativa visa potencializar a economia local por meio do fomento ao turismo gastronômico, eventos culturais e capacitação profissional especializada.

Diante desse panorama, representantes do setor aquícola nacional reivindicam a adoção de medidas protecionistas e a revisão das políticas comerciais vigentes, a fim de assegurar a sustentabilidade econômica da produção doméstica e a preservação dos empregos gerados ao longo de toda a cadeia produtiva.

Fontes: Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), Associação Brasileira de Piscicultura (Peixe BR), Empresa de Pesquisa Agropecuária de Minas Gerais (Epamig), Governo do Estado de Pernambuco, Sebrae Pernambuco, Portal NeoFeed, Diário do Comércio, Jornal do Comércio, Diário de Pernambuco, Revista Globo Rural e informações do setor aquícola.