Brasília – Uma crise familiar e política abalou o bolsonarismo nesta segunda-feira (1º) após Michelle Bolsonaro criticar publicamente, durante evento no Ceará, a aproximação do PL com o ex-governador Ciro Gomes (PDT). A ex-primeira-dama classificou a possível aliança como “trocar Stalin por Lênin” e cobrou explicações do deputado federal André Fernandes (PL-CE), responsável pelas negociações locais.
A reação dos três filhos mais velhos de Jair Bolsonaro foi imediata e contundente – fato raro, já que Michelle sempre foi poupada de críticas diretas pelo trio.
Flávio Bolsonaro (PL-RJ), senador e líder da família no Congresso, foi o primeiro a se manifestar. Em mensagens privadas e depois publicamente, afirmou que Michelle “atropelou” uma estratégia previamente alinhada com o ex-presidente Jair Bolsonaro e agiu de forma “autoritária” ao repreender Fernandes em público. Flávio ligou pessoalmente para o deputado cearense para pedir desculpas em nome dele e do pai (G1, 01/12/2025).
Carlos Bolsonaro (vereador no Rio) foi ao X (antigo Twitter) e escreveu que “decisões políticas devem respeitar a liderança do meu pai” e que divergências internas não podem ser resolvidas “na rua”, pois só enfraquecem a direita”. Em outro post, reforçou que “não se pode permitir influência de outras forças” – frase interpretada nos bastidores como recado indireto à madrasta.
Eduardo Bolsonaro (deputado federal por SP) completou o coro ao afirmar que “acordos eleitorais são normais na política” e que Fernandes apenas cumpria orientação partidária. “Foi injusto jogar o André na fogueira”, escreveu.
O episódio expôs duas visões distintas dentro do núcleo duro bolsonarista:
Os filhos defendem flexibilidade tática e alianças regionais para ampliar palanques em 2026, mesmo que isso inclua antigos adversários como Ciro Gomes no Ceará.
Michelle Bolsonaro mantém postura de rigidez ideológica, rejeitando qualquer aproximação com a esquerda ou centro-esquerda, posição que vem ganhando força entre evangélica no PL.
Horas depois do auge da crise, Flávio Bolsonaro visitou o pai – atualmente preso preventivamente no Batalhão da Polícia do Exército em Brasília – e, ao sair, declarou à imprensa que “já pediu desculpas a Michelle” e que “não há decisão tomada sobre aliança com Ciro Gomes”. Afirmou ainda que o assunto será tratado em reuniões internas do PL e que a palavra final caberá a Jair Bolsonaro para 2026 (Gazeta do Povo, 02/12/2025).
Michelle, por sua vez, publicou nota à noite pedindo “perdão aos meus queridos enteados” e dizendo que “ama a família acima de tudo”, mas manteve a posição contrária à aliança com Ciro Gomes.
Aliados do PL no Ceará relataram “clima clima pesado” e temem que o episódio afaste o senador Eduardo Girão (Novo), pré-candidato apoiado por Michelle, da órbita bolsonarista no estado. Já deputados do Centrão celebraram nos bastidores: “Quanto mais eles brigam entre si, melhor para nós em 2026”.
O caso marca a primeira vez, desde 2018, que os filhos de Jair Bolsonaro se posicionam publicamente contra Michelle – até então considerada intocável dentro do núcleo familiar e político do ex-presidente. Analistas veem o episódio como sinal de que, com Bolsonaro preso e sem data para deixar a cadeia, a disputa pelo comando real do bolsonarismo começou para valer.
