Em meio à escalada de tensões no Oriente Médio, o governo Donald Trump lançou um novo capítulo de sua política externa para as Américas que está gerando alarme entre especialistas em relações internacionais. Durante a Conferência das Américas de Combate aos Cartéis, realizada na última quinta-feira (05/03) em Doral, na Flórida, o secretário de Defesa dos EUA, Pete Hegseth, deixou claro que Washington está disposto a violar a soberania de nações latino-americanas caso seus interesses sejam ameaçados.

> "Os Estados Unidos estão preparados para enfrentar essas ameaças e partir para o ataque sozinhos, se necessário. No entanto, nossa preferência — e o objetivo desta conferência — é que, no interesse deste hemisfério, façamos isso juntos; com vocês, com nossos vizinhos e com nossos aliados" — declarou Hegseth durante a abertura do evento .

A fala, proferida na sede do Comando Sul dos EUA (SOUTHCOM), representa uma mudança qualitativa na relação entre Washington e seus vizinhos latino-americanos. O que antes era exercido de forma velada — pressões econômicas, sanções e operações encobertas — agora é assumido abertamente como direito de intervenção unilateral.

Hegseth não economizou em referências históricas ao justificar a nova postura americana. O secretário enfatizou que a coalizão firmada na Flórida expressa a política do "Corolário Trump" à Doutrina Monroe — princípio incluído na Estratégia de Segurança Nacional anunciada em dezembro de 2025 .

A Doutrina Monroe, criada em 1823, estabelecia que o hemisfério ocidental seria zona de influência exclusiva dos Estados Unidos, vedando a intervenção de potências europeias nas Américas. Agora, o governo Trump atualiza esse conceito para o século XXI, com foco na contenção da influência chinesa na região.

"Queremos impedir que potências externas ameacem nossa paz e independência em nossa região comum" — acrescentou Hegseth, deixando implícita a referência à China .

O documento da Estratégia de Segurança Nacional deixa poucas dúvidas sobre os objetivos: "Impediremos os nossos concorrentes não hemisféricos de colocarem forças ou outras ameaças, ou possuírem ou controlarem ativos estratégicos vitais, no nosso hemisfério" .

Os 16 Países Presentes e as Ausências Significativas

A conferência contou com representantes de 16 nações latino-americanas: Argentina, Guiana, Bolívia, Equador, Paraguai, Chile, Peru, Belize, Costa Rica, República Dominicana, El Salvador, Guatemala, Honduras, Jamaica, Panamá e Trinidad e Tobago .

Notáveis ausências: o Brasil e o México, duas maiores economias da região, não compareceram ao evento — sinal de desconforto com a agenda proposta por Washington.

Para o professor de geopolítica da Escola Superior de Guerra (ESG), Ronaldo Carmona, a declaração de Hegseth configura uma "ameaça gravíssima" à soberania latino-americana.

> "Pois sob Trump, as ameaças costumam se materializar (vide Venezuela e agora Irã). Ao evocar a Doutrina Monroe, o faz propondo expurgar a presença de potências extrarregionais das Américas, em uma ameaça explícita à liberdade de ação das nações da América Latina" — analisou Carmona em entrevista à Agência Brasil .

O pesquisador do Centro Brasileiro de Relações Internacionais (Cebri) acrescentou que os EUA tentam "latino-americanizar" o problema do narcotráfico como "pretexto" para intervenções no continente, como ocorreu recentemente na Venezuela, quando o combate aos cartéis foi a justificativa para o sequestro do presidente Nicolás Maduro .

"É difícil imaginar que as forças de segurança americana não tenham meios para proteger autonomamente suas próprias fronteiras" — completou o especialista .

Enquanto isso, Brasil e México mantêm posição firme em defesa da soberania regional.

A presidente mexicana, Claudia Sheinbaum, destacou que o combate às drogas deve ser feito com "coordenação e sem subordinação, como iguais" .

O presidente brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva, incluiu o combate ao narcotráfico na agenda de negociações com Trump, mas o Brasil historicamente diferencia atividades policiais — usadas no combate ao tráfico — das atividades de Defesa, ligadas à soberania territorial. Os EUA, porém, tentam militarizar essa questão .

"O Brasil precisa urgentemente, como uma prioridade nacional, enfrentar com todas as energias, a começar das forças de segurança, as organizações criminosas brasileiras, até para não oferecer pretexto a Washington de utilizá-las com fins de ameaça à soberania brasileira" — alertou Carmona .

Contexto Histórico: Do "Xerife das Américas" à "Donroe Doctrine"

A política de Trump não é apenas retórica. Desde agosto de 2025, os EUA vêm realizando mais de 40 ataques aéreos contra embarcações suspeitas de tráfico de drogas no Caribe e no Pacífico oriental, resultando em pelo menos 150 mortes .

Em janeiro de 2026, a Operação ABSOLUTE RESOLVE (Determinação Absoluta) contra a Venezuela demonstrou a disposição de Washington em usar força militar direta no hemisfério. O secretário Hegseth chegou a afirmar que "Nicolas Maduro pensava que poderia envenenar os americanos com total impunidade. A operação ABSOLUTE RESOLVE lhe ensinou que não era assim" .

A imprensa americana já batizou a nova política de "Donroe Doctrine" — fusão de "Donald" com "Monroe" —, termo cunhado pelo New York Post em janeiro de 2025 .

A conferência da Flórida revela uma transformação profunda na política externa dos EUA:

1. Militarização das relações regionais: O combate aos cartéis serve de justificativa para presença militar ampliada

2. Confronto com a China: Expulsão de influência chinesa de infraestruturas estratégicas (como o Canal do Panamá)

3. Soberania condicional: Países devem escolher entre alinhamento com Washington ou exposição a "medidas direcionadas e decisivas"

4. Controle de recursos: Garantia de "acesso irrestrito a áreas estratégicas e ao comércio" para industrialização americana

Para o Nordeste brasileiro e especificamente Pernambuco, as implicações dessa política são múltiplas. A região, historicamente alijada de grandes decisões de política externa, pode ver aumentada a pressão sobre suas fronteiras marítimas — especialmente considerando a posição estratégica do litoral pernambucano no Atlântico Sul.

Além disso, a tentativa de "latino-americanizar" o problema das drogas desvia a responsabilidade dos EUA — principais consumidores mundiais — para países produtores e de trânsito, como o Brasil.

Evento Conferência das Américas de Combate aos Cartéis aconteceu no último dia 05 de março de 2026 na Sede do Comando Sul (SOUTHCOM), Doral, Flórida

Participantes 16 países latino-americanos (sem Brasil e México)

Fala-chave Pete Hegseth, Secretário de Defesa dos EUA

Doutrina invocada "Corolário Trump" à Doutrina Monroe (1823)

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Fontes consultadas: Agência Brasil , CADTM , OPEU , New York Post , DefesaNet , Exame