Brasília, 30 de abril de 2026 — Em um episódio inédito na política brasileira desde 1894, o Senado Federal rejeitou na noite de quarta-feira (29) a indicação do advogado-geral da União Jorge Messias para uma vaga no Supremo Tribunal Federal (STF). O placar de 42 votos contra e 34 a favor — sete abaixo do mínimo necessário de 41 — representou uma derrota acachapante para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que agora enfrenta uma crise institucional sem precedentes em seu terceiro mandato.
A rejeição de Messias foi amplamente atribuída à atuação do presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), que desde novembro de 2025 vinha articulando nos bastidores contra o indicado de Lula. Alcolumbre preferia o nome do senador Rodrigo Pacheco (PSB-MG), seu aliado político, e se sentiu traído pelo petista ao ter sua indicação ignorada.
Segundo a colunista Raquel Landim, do Estadão, Alcolumbre chegou a prever em conversa com senadores que Messias teria apenas 33 votos favoráveis — quase acertando em cheio o resultado final. "O placar derrubou completamente as expectativas governistas que falavam em apoio de 45 senadores", destacou a jornalista.
A Agência Pública apurou que, horas antes da votação, o líder do PL no Senado, Sóstenes Cavalcante (RJ), teria ligado a Alcolumbre para obter informações sobre as tratativas para barrar a indicação. O presidente do Senado teria respondido: "Faça a sua parte, que eu faço a minha".
Horas depois da derrota, Lula reuniu aliados no Palácio da Alvorada para mapear as "traições" na votação. Participantes da reunião relataram que o presidente demonstrou serenidade, enquanto buscava confortar Messias, que admitiu publicamente que "não é fácil passar pela reprovação".
Durante o encontro, integrantes do governo identificaram dissidências no MDB e no PSD, em um conluio que teria sido conduzido por Alcolumbre. Colaboradores do presidente apontam ainda a participação do senador Rodrigo Pacheco e do ministro Alexandre de Moraes, do STF, em um pacto para impedir a nomeação de Messias.
EXONERAÇÕES DE INDICADOS DE ALCOLUMBRE EM PAUTA
A principal questão que paira sobre Brasília nesta quinta-feira (30) é se Lula decidirá exonerar os ministros indicados por Alcolumbre como retaliação política. Os nomes mais citados são:
Waldez Góes (Integração e Desenvolvimento Regional)
Ambos são considerados da "cota" de Alcolumbre no governo. Waldez Góes, ex-governador do Amapá, comanda uma pasta com forte presença em obras públicas e influência sobre a Codevasf. Frederico Siqueira, por sua vez, assumiu o Ministério das Comunicações com apoio direto do senador.
No entanto, fontes próximas ao presidente indicam que Lula não deve tomar uma decisão imediata. Aliados relatam que o petista costuma repetir que "não se deve tomar decisões a 39 graus de febre". O ministro das Relações Institucionais, José Guimarães, afirmou que o momento é de "agir com inteligência, não com fígado".
A rejeição de Messias deixa o STF com uma vaga aberta desde a aposentadoria de Luís Roberto Barroso, em outubro de 2025. Na turma que opera com apenas quatro ministros, prevalece automaticamente a decisão mais favorável ao réu. No plenário, julgamentos que exijam maioria absoluta são considerados decididos de forma contrária ao pedido em caso de empate.
Oposicionistas avaliam que, com o resultado, o governo ficará irreversivelmente enfraquecido no Senado. O senador Rogério Marinho (PL-RN), líder da oposição, declarou que o episódio simboliza o fim de "Lula 3", argumentando que o presidente perdeu credibilidade e legitimidade para conduzir negociações na Casa.
A reação oficial do governo à derrota é esperada para a semana que vem, após o feriado do 1º de maio e a identificação dos responsáveis pela derrota. Duas vertentes se desenham no Palácio do Planalto:
Ala radical: Defende a exoneração imediata de todos os indicados por Alcolumbre e uma ofensiva política no Amapá para derrotar os candidatos do senador nas eleições de outubro.
Ala moderada: Pondera que um rompimento total não é viável, pois Lula ainda precisa aprovar projetos no Congresso antes da eleição, como o fim da escala de trabalho 6x1.
O consenso entre analistas políticos é que a relação entre Lula e Alcolumbre ficará "péssima e sem confiança", independentemente das medidas adotadas. Nem mesmo a ex-presidente Dilma Rousseff, que sofreu impeachment em 2016, teve um indicado para o STF rejeitado pelo Senado.
Fontes: Folha de S.Paulo, Estadão, O Globo, Agência Pública, CNN Brasil, ICL Notícias, Brasil 247, Diário de Cuiabá
