O Brasil atravessa um momento de intensos desafios econômicos em 2026. A pressão inflacionária moderada, os ajustes fiscais ainda em discussão no Congresso e um ambiente de custos elevados para empresas colocam o país em um cenário competitivo complexo diante de parceiros regionais. Nesse contexto, um fenômeno que vinha crescendo discretamente nos últimos anos ganhou destaque: a migração de empresas brasileiras para o Paraguai em busca de menores custos operacionais e estrutura tributária mais favorável.

A chamada “marcha” de empresas brasileiras rumo ao Paraguai não tem relação apenas com mão de obra mais barata — embora isso seja parte do quadro —, mas com um conjunto de fatores que tornam o país vizinho mais competitivo para a produção. Entre os principais motivos estão:

Carga tributária mais baixa e simplificada: enquanto o Brasil enfrenta um complexo sistema com dezenas de tributos e uma eficaz carga fiscal sobre lucro e dividendos, o Paraguai oferece um regime mais claro e leve, com impostos corporativos e sobre valor adicionado em torno de 10% e ainda regimes especiais que reduzem a zero ou a 1% a tributação de empresas exportadoras sob o regime de maquila.

Incentivos através da Lei de Maquila: esse regime paraguaio permite que empresas estrangeiras importem insumos sem tarifas e paguem um tributo único sobre exportações, reduzindo custos de produção em até 40% em alguns setores.

Energia e logística competitivas: custos de energia no Paraguai, impulsionados pela forte participação de hidrelétricas como Itaipu, e sua localização estratégica no Mercosul atraem empresas que querem produzir mais barato para mercados regionais.

Proximidade geográfica e acordos comerciais: a posição dentro do Mercosul favorece exportações para o Brasil com tarifas reduzidas, e a construção de infraestrutura de integração física entre os países, como novas pontes e rodovias transfronteiriças, fortalece essa dinâmica logística.

O movimento, que começou predominantemente em setores como têxtil e confecção, já envolve centenas de empresas brasileiras — de médias a grandes — que instalaram plantas industriais ou centros logísticos em cidades fronteiriças como Ciudad del Este ou mesmo mais afastadas, como Assunção. Empresas tradicionais como Lupo, Riachuelo, Estrela, entre outras, já anunciaram investimentos ou operações no Paraguai.

Essa saída parcial de produção tem efeitos diretos no Brasil:

Perda de arrecadação tributária: com parte da cadeia produtiva fora do país, o governo brasileiro arrecada menos impostos diretos e indiretos.

Risco de desindustrialização: economistas alertam que a migração de unidades fabris pode acelerar a erosão da capacidade industrial nacional, ampliando a dependência de produtos importados.

Empregos e investimentos: saídas de plantas industriais refletem também em empregos que poderiam ser gerados ou mantidos no território nacional.

O que o fenômeno revela sobre a economia brasileira

Especialistas concordam que o movimento não é simplesmente um “êxodo” caótico, mas o reflexo de desequilíbrios estruturais no Brasil — como a complexidade tributária, custos trabalhistas elevados e incertezas regulatórias — que empurram empresários a buscar ambientes mais previsíveis e menos onerosos.

Para reter investimentos e atrair novos capitais, analistas apontam a necessidade de reformas profundas no sistema fiscal brasileiro, maior simplificação tributária e modernização das leis trabalhistas, além de políticas de incentivo à inovação e competitividade industrial.

Do lado paraguaio, o influxo de empresas brasileiras representa uma oportunidade de diversificação econômica, geração de empregos e crescimento das exportações. No entanto, o país também enfrenta desafios, como infraestrutura logística ainda em expansão e um mercado consumidor interno menor do que o brasileiro.

Em suma, a migração de empresas brasileiras para o Paraguai é um sinal claro de que investidores e empreendedores estão recalibrando suas estratégias diante dos custos operacionais e ambientais — e que o Brasil precisa responder a esse desafio para sustentar seu crescimento no longo prazo.