O brasileiro é um herói anônimo. Acorda cedo, enfrenta o trânsito, o metrô lotado, o ônibus que não vem, entrega oito, dez, doze horas do seu dia em troca de um salário. E antes mesmo que esse dinheiro caia na conta, já vem o desconto. IR, INSS, PIS, COFINS, CSLL, IPI, ICMS, ISS. Imposto sobre o salário. Imposto sobre o que compra com o salário. Imposto sobre o remédio que precisa para continuar trabalhando. Imposto até sobre o caixão, quando o sistema finalmente vence.

Arrecada-se, em média, algo próximo a Dois trilhões de reais por ano. Um número tão astronômico que deveria garantir, no mínimo, que uma mãe não segurasse seu filho febril por oito horas numa cadeira de plástico manchada na porta de um hospital. Que um idoso não morresse no corredor esperando por um leito que nunca desocupa. Que a "classe baixa" — esse termo tão conveniente para quem governa — não fosse condenada a escolher entre a dignidade e a sobrevivência.

A classe baixa sofre. Sofre de pé, na fila que começa antes do sol raiar. Sofre sentada nas cadeiras quebradas do pronto-socorro, olhando para o relógio que não anda, para a porta que não se abre, para o médico que não existe em número suficiente. Sofre nos corredores, deitada em macas enferrujadas, dividindo o espaço com ratos, baratas e a certeza de que foi esquecida pelo Estado. E quando finalmente é atendida, leva um paracetamol e um "volte se piorar" — como se piorar não fosse a única certeza daquele lugar.

E a classe média? Aquela que o governo adora taxar porque "tem condições"? Ela também paga. Paga todos os impostos obrigatórios. E depois desembolsa, do próprio bolso, R$ entre R$ 300,00 a 350,00 — ou mais — numa consulta particular porque sabe que no SUS vai demorar tanto que a doença vence antes do diagnóstico. Mas a consulta não é o fim. É só o começo do desmonte. Vêm os exames, um após o outro, cada um com seu preço particular, cada um empurrado para o setor privado porque o público não tem vaga, não tem aparelho, não tem reagente, não tem vontade política. E depois dos exames, a farmácia. O remédio que o médico prescreveu e que o SUS não tem. O genérico que falta. O de marca que custa metade do salário.

No final das contas, quem tem menos paga com a vida. Quem tem um pouco mais paga duas vezes: uma para o Estado, outra para sobreviver apesar do Estado.

E aí mora a pergunta que não quer calar: onde está a Saúde Pública?

Onde está o SUS que a Constituição prometeu? Onde estão os dois trilhões? Para onde vão os bilhões investidos — supostamente — na saúde federal, estadual e municipal? Não é falta de dinheiro. É falta de honestidade. É falta de gestão. É um sistema que engorda em cima da doença do povo, enquanto hospitais fecham leitos, faltam medicamentos oncológicos, salários de médicos atrasam e a máquina pública continua se alimentando de impostos como um monstro insaciável.

Não é problema de saúde. É problema de sala vermelha. É emergência de UTI. É um paciente chamado Brasil que sangra recursos e não recebe atendimento. A precariedade não é acidente. É projeto. É o resultado de décadas de roubalheira, de superfaturamento, de desvio de verba, de nomeação política em lugar de técnica, de tratamento de saúde como negócio e não como direito.

O brasileiro não quer hospital de luxo. Quer um pronto-atendimento que não seja um antecâmara do caixão. Quer que o imposto que paga no café da semana, no arroz do mês, no remédio da pressão, no salário suado, volte para ele na forma de atendimento digno, de leito disponível, de médico presente, de remédio na prateleira.

Reformular? Não. O Brasil precisa de ressurreição. Precisa de gestores que olhem para o hospital como olham para o próprio plano de saúde. Precisa de um povo que cobre com a mesma intensidade com que paga. Porque pagamos. Pagamos sempre. E pagamos caro. O que não podemos mais pagar é com a vida.

A saúde pública não está quebrada. Ela foi quebrada. E quem a quebrou segue livre, enquanto o brasileiro segue agonizando na fila.